Não era uma ilha, era uma gruta. Fim da história.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Na varanda, outros ocupantes
Pela sua situação, a varanda permite que as personagens que nela se movem se sucedam umas às outras, como se fosse num palco. Por isso, entraram e puxaram as cadeiras de verga para mais perto da grade, de forma a que cada um ficasse como mais lhe agradava: um ao sol, o outro à sombra com as pernas estendidas.
Sim, estava sol. Mas quanto à vista, mais valia abstraírem-se dela, que nada de muito agradável oferecia. Melhor era gozarem o sol pelo sol e olharem apenas o espaço até à grade. Era até bastante agradável e estavam em condições de falar.
- Parece-me que estou a ver aí um projecto amoroso em construção, não?
Sim. Se até cada um deles estava como queria, um ao sol, outro à sombra de pernas estendidas, aproveitando a tepidez outonal, que mais poderia ser?
Sim, estava sol. Mas quanto à vista, mais valia abstraírem-se dela, que nada de muito agradável oferecia. Melhor era gozarem o sol pelo sol e olharem apenas o espaço até à grade. Era até bastante agradável e estavam em condições de falar.
- Parece-me que estou a ver aí um projecto amoroso em construção, não?
Sim. Se até cada um deles estava como queria, um ao sol, outro à sombra de pernas estendidas, aproveitando a tepidez outonal, que mais poderia ser?
sábado, 9 de outubro de 2010
O observado
Passa com o seu passo confiante e de não-quero-saber. Passa com o seu passo e é claro que atrai olhares quando passa, pelo menos um. Quando passa ao longo da sala, por entre as mesas, em direcção ao seu lugar - sempre o mesmo.
O que chama primeiro a atenção é esse passo desempenado quando passa e a roupa, sempre impecável, escolhida para atrair. (Tem de ser para atrair.) Isto para depois se reparar no corpo dentro do vestuário à medida. Depois na cara, enfim.
Claro que passa e atrai olhares. Claro. Pelo menos um.
Não é claro, mas parece quase natural que de tanta gente naquela sala, apenas fale com uma pessoa - sempre a mesma. Só uma. E que fume sozinho na varanda. Porque fuma sozinho na varanda, deixando que os vidros lhe permitam ser observado?
Claro que fuma sem olhar para o interior da sala. Assim como é claro que passa passando, sem olhar, sem querer saber, muito senhor de si, revelando cada dia como o seu guarda-roupa é interminável e tem todas as combinações possíveis e pensadas. Claro que há dias em que passa com a barba por fazer, para atrair olhares, tal como é claro que nem sempre tenha os óculos postos quando passa. Para atrair olhares. Pelo menos um.
Gostaria ao menos de saber se a confiança lhe passa do corpo para a roupa ou da roupa para o corpo. Porque enfim, se passa... Que passe, que passe.
O que chama primeiro a atenção é esse passo desempenado quando passa e a roupa, sempre impecável, escolhida para atrair. (Tem de ser para atrair.) Isto para depois se reparar no corpo dentro do vestuário à medida. Depois na cara, enfim.
Claro que passa e atrai olhares. Claro. Pelo menos um.
Não é claro, mas parece quase natural que de tanta gente naquela sala, apenas fale com uma pessoa - sempre a mesma. Só uma. E que fume sozinho na varanda. Porque fuma sozinho na varanda, deixando que os vidros lhe permitam ser observado?
Claro que fuma sem olhar para o interior da sala. Assim como é claro que passa passando, sem olhar, sem querer saber, muito senhor de si, revelando cada dia como o seu guarda-roupa é interminável e tem todas as combinações possíveis e pensadas. Claro que há dias em que passa com a barba por fazer, para atrair olhares, tal como é claro que nem sempre tenha os óculos postos quando passa. Para atrair olhares. Pelo menos um.
Gostaria ao menos de saber se a confiança lhe passa do corpo para a roupa ou da roupa para o corpo. Porque enfim, se passa... Que passe, que passe.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Pedro e Carolina II
Na espécie de guerra fria em que o casamento de Pedro e Carolina se foi tornando, a irmã daquele que fora um dos mais badalados escritores da capital encontrou as suas maneiras de resistir. O que até não é de estranhar, pois ela era ainda a criatura irresistível que por aí se passeava, que punha e dispunha e que o jeito titubeante do médico soubera cativar. O riso de Carolina, a forma que tinha de dizer "não fique atrapalhado, doutor" - isto para recuperar uma frase da noite de máscaras em que se conheceram.
Qualquer biógrafo atento terá de registar que Carolina não deixou nunca de praticar o alemão. Lendo, escutando discos, escrevendo e até, se possível, falando. A explicação é simples: Carolina assegurava-se de que Pedro não tinha acesso a, pelo menos, uma parte da sua vida.
Qualquer biógrafo atento terá de registar que Carolina não deixou nunca de praticar o alemão. Lendo, escutando discos, escrevendo e até, se possível, falando. A explicação é simples: Carolina assegurava-se de que Pedro não tinha acesso a, pelo menos, uma parte da sua vida.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Crónica lisboeta: Pedro e Carolina
Lembrei-me de Pedro Vasques, o médico do Chiado, não tanto pelas suas particularidades, mas pela singular mulher que tomou como sua, Carolina.
A história de Pedro e Carolina começou em 1925 e os seus episódios primeiros foram de uma doçura comovente. Conheceram-se num baile de máscaras dado no palacete que a viscondessa de Lima Campos tinha no Campo Grande.
Nessa noite ela estava comprometida com um outro Pedro, que não a acompanhara. O Dr. Vasques sentiu-se irresistivelmente atraído por aquela beleza, aquele cabelo ruivo, pelo ar tristonho dela. E arriscou falar com ela, num momento em que ela fixava absorta o conteúdo da sua taça de champanhe.
Foi bonito, com a música da banda servindo de fundo à troca de palavras. A abordagem do médico não foi a mais brilhante, facilmente atrapalhável, tendo sido tosco ao ponto de juntar a palavra "médico" no momento de dizer o seu nome. Isso bastou para que ela lhe começasse a chamar "doutor", algo que nunca deixou de fazer. Ela gostou do galanteio, daquele ar meio ingénuo.
É arrepiante pensar que ao fim de poucos anos de casamento, Carolina se apercebera de como Pedro era medíocre. E como se operara nele tanta mudança, ele que antes de a conhecer a ela e à sua espontaneidade, tivera o choque de arranjar uma noiva suicida?
A história de Pedro e Carolina começou em 1925 e os seus episódios primeiros foram de uma doçura comovente. Conheceram-se num baile de máscaras dado no palacete que a viscondessa de Lima Campos tinha no Campo Grande.
Nessa noite ela estava comprometida com um outro Pedro, que não a acompanhara. O Dr. Vasques sentiu-se irresistivelmente atraído por aquela beleza, aquele cabelo ruivo, pelo ar tristonho dela. E arriscou falar com ela, num momento em que ela fixava absorta o conteúdo da sua taça de champanhe.
Foi bonito, com a música da banda servindo de fundo à troca de palavras. A abordagem do médico não foi a mais brilhante, facilmente atrapalhável, tendo sido tosco ao ponto de juntar a palavra "médico" no momento de dizer o seu nome. Isso bastou para que ela lhe começasse a chamar "doutor", algo que nunca deixou de fazer. Ela gostou do galanteio, daquele ar meio ingénuo.
É arrepiante pensar que ao fim de poucos anos de casamento, Carolina se apercebera de como Pedro era medíocre. E como se operara nele tanta mudança, ele que antes de a conhecer a ela e à sua espontaneidade, tivera o choque de arranjar uma noiva suicida?
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Chá com Joaninha
Do que eu preciso é que me cantes uma canção. Não uma qualquer, mas uma em particular.
Era nisso que eu pensava quando Joaninha Apolónia decidiu interromper a solidão dos meus dias e entrar pelo quarto adentro. Conseguiu mesmo, ainda não sei bem como, enfiar uma mesinha redonda junto à janela. Uma mesa sobre a qual estava disposta uma comprida toalha branca e um serviço de chá. Não a consegui demover de mudar as cortinas para outras, de um branco vaporoso. A claridade do quarto tornou-se irreal, parecia que estávamos à beira-mar.
Sugeri que mais valia colocar a mesa na varanda, do outro lado do vidro. Não era tão mais agradável?
- Ele que te leve lá para fora. - Foi esta a sua resposta.
Percebi então que havia ali um meio-termo, um ponto de moderação que Joaninha Apolónia não ousava ultrapassar. Porque não lhe competia. E Joaninha Apolónia era uma autoridade nestas coisas, fora colega e confidente de Margarida Cavaleiro. Enfim, sabia do que falava.
Por isso sentámo-nos, tomámos chá e conversámos (mais ela do que eu), sob aquela irreal luz esbranquiçada.
Depois de ter saído ("tem paciência"), só as migalhas sobre a toalha e o fundo das chávenas amarelado. E aí - o quarto ainda cheirando aos vapores do chá - decidi que era inútil lutar contra a decisão já tomada. A de esperar por ti, para que me cantasses a canção, me levasses lá para fora.
Era nisso que eu pensava quando Joaninha Apolónia decidiu interromper a solidão dos meus dias e entrar pelo quarto adentro. Conseguiu mesmo, ainda não sei bem como, enfiar uma mesinha redonda junto à janela. Uma mesa sobre a qual estava disposta uma comprida toalha branca e um serviço de chá. Não a consegui demover de mudar as cortinas para outras, de um branco vaporoso. A claridade do quarto tornou-se irreal, parecia que estávamos à beira-mar.
Sugeri que mais valia colocar a mesa na varanda, do outro lado do vidro. Não era tão mais agradável?
- Ele que te leve lá para fora. - Foi esta a sua resposta.
Percebi então que havia ali um meio-termo, um ponto de moderação que Joaninha Apolónia não ousava ultrapassar. Porque não lhe competia. E Joaninha Apolónia era uma autoridade nestas coisas, fora colega e confidente de Margarida Cavaleiro. Enfim, sabia do que falava.
Por isso sentámo-nos, tomámos chá e conversámos (mais ela do que eu), sob aquela irreal luz esbranquiçada.
Depois de ter saído ("tem paciência"), só as migalhas sobre a toalha e o fundo das chávenas amarelado. E aí - o quarto ainda cheirando aos vapores do chá - decidi que era inútil lutar contra a decisão já tomada. A de esperar por ti, para que me cantasses a canção, me levasses lá para fora.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Acerca da identidade sentimental
(Para V.)
Reporto-me à história do minhoto que diz ao outro à saída da Exposição do Mundo Português (Lisboa, 1940): "agora tu já sabes o que é ser português".
Eu tinha uma exposição maior para mostrar. Mas desvalorizei à partida a busca da identidade nacional, pois por mais que procurasse apenas encontrava peças de uma outra identidade, praticamente tropeçava nelas. Fosse num antigo palácio real, numa exposição comemorativa, num eléctrico centenário ou num cinema municipal, nada me dizia (e até podia dizer) portugalidade. Eu apenas descobria a construção da identidade sentimental.
Por isso, nem sei se alguém ficou a saber o que é ser português. Eu, pelo menos, fiquei a saber outra coisa.
Reporto-me à história do minhoto que diz ao outro à saída da Exposição do Mundo Português (Lisboa, 1940): "agora tu já sabes o que é ser português".
Eu tinha uma exposição maior para mostrar. Mas desvalorizei à partida a busca da identidade nacional, pois por mais que procurasse apenas encontrava peças de uma outra identidade, praticamente tropeçava nelas. Fosse num antigo palácio real, numa exposição comemorativa, num eléctrico centenário ou num cinema municipal, nada me dizia (e até podia dizer) portugalidade. Eu apenas descobria a construção da identidade sentimental.
Por isso, nem sei se alguém ficou a saber o que é ser português. Eu, pelo menos, fiquei a saber outra coisa.
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