quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Regresso à casa na praia II

Havia até aquele irresistível toque passadista de comermos em loiça que outrora servira a tripulação e os passageiros do Princesa do Douro.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Regresso à casa na praia

(Para M.)

Talvez porque hoje chove, falo-vos da casa na praia, onde, apesar do Estio, tudo era humidade.
Os mesmos odores, os mesmos sons. E o mesmo quarto ao fundo do corredor, mantido no penumbra. Os ritmos abrandam nesse reduto de calma. Há placidez conducente a uma espécie de felicidade em todos os gestos, estar simplesmente deitado sobre a cama é algo impossível de ser desvalorizado.
E depois, à vinda, após nos termos sentado em redor de uma mesa com tarte de maçã para seis, o tempo estava assim, cinzento.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A luz das lanternas

O estabelecimento tinha um pátio fechado e tudo parecia roxo. A única luz provinha de lanternas de papel vermelho e branco e havia almofadas por todo o lado. (Parecia que a equipa do Querido, mudei a casa tinha passado por ali.)
- Traga-me um x, por favor. - isto foi dito à empregada, cada um cumprindo o seu papel.
Porque de outra maneira seria difícil gozar a luz das lanternas ao ar livre, naquela noite quente de cidade alentejana. Tudo certo. Era imperativo que assim fosse, que tudo estivesse nos devidos lugares, cada um cumprindo o seu papel: a empregada, as paredes roxas, o céu estrelado, as almofadas, nós.
Apenas para sentir. Qualquer movimento brusco é interdito.
- Mas como tu, acho que não encontro outro. Por isso promete-me...
Eu calado, nada mais. Desejando que as luz das lanternas de papel, o quase-rumor da conversa vizinha e a brisa soubessem expressar a minha gratidão.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Heranças


Herdei da minha mãe o apego ao Estado, à lei e às instituições.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O Verão que não foi na Beira VI

O novo cenário a que eu me referia era um daqueles apartamentos sempre na penumbra e a cheirar a passado, daqueles que existem na Lisboa de Ressano Garcia. Determinados romances portugueses gostam até de colocar no interior desses apartamentos alguma velha tia.
Mais exactamente, o cenário em questão era a sala. Nessa sala foi-me feita uma oferta: "venha conhecer a ilha", disse ele. Sim, depois desse percurso que começara numa escadaria numa tarde de calor e que recordo com especial carinho, convidava-me a conhecer a ilha.
A ilha devia esse nome à sua extraordinária localização. Estava a vários metros de altura, fazendo com os ruídos do exterior apenas chegassem em surdina. Mas sobretudo, todas as suas janelas davam para o mar, do qual se avistava uma larga faixa. Não estou certa de conseguir transmitir-lhe a beleza da vista... É que era possível uma pessoa sentar-se à mesa e só ver mar, mar, mar e algum barquinho que por lá andasse e no horizonte o sol a por-se.
Tem de admitir que um convite para conhecer a ilha era demasiado aliciante.

domingo, 8 de agosto de 2010

O Verão que não foi na Beira V

Espero que o relato não esteja a ser muito confuso. Repare que pouco se passou desde o acontecimento que lançou esta história. E o que me faz sorrir é a semelhança que imediatamente nele descobri com uma cena de um filme, que julgo que até se passava em África.
Como vê, a produção de imagens bonitas está sempre presente, era quase uma obrigação. Isto porque sim, eu buscava a harmonia, mas acabei por concluir que essa era uma busca vã. Decidi então que mais valia preocupar-me com as imagens, já que são elas que - mais ou menos nítidas - vão ficando.
Cedo percebi - como se calhar já percebeu - que as deslocações e os transportes eram um elemento importante nesta história. Cada vez que o via, havia logo um transporte, fosse ele rodoviário ou ferroviário, à espera para levar pelo menos um de nós até outro local.
Pode não parecer nada demais, mas duas horas numa carruagem de comboio ou três percorrendo uma auto-estrada davam espaço ao pensamento. E de pensar estava eu farto.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

O Verão que não foi na Beira IV

Nesta que se tornou uma busca incessante de imagens bonitas (ou pelo menos insólitas, ainda que com o seu quê de belo), houve um novo cenário que se impôs.
A espera? Estava a pensar ignorá-la... Não, não se trata de insensibilidade, mas tão somente de utilitarismo. Sim, o jornalista, por exemplo... O que trouxe isso de bom? Nada. A espera resume-se em duas ou três palavras e realmente não vejo onde possa estar o interesse delas. Tanto que, como eu ia explicar, havia um novo cenário a desenhar-se em nosso redor.
Você não desiste... Sim, fui isso tudo o que diz... Evita, Penélope... Sim, eu sei que a Evita é uma Penélope menos fiel. Mas se Penélope tivesse sido uma mulher real nunca teria perdido horas de sono para desfazer o que tinha tecido durante o dia. Minha querida, devia ter feito como todos os outros e deixado de ler livros de mitologia aos treze anos.
Posso continuar agora?