quarta-feira, 29 de abril de 2015

A viagem

"Sabes a Jane Eyre?", perguntava eu. "Leste o livro?"
Era uma noite de Inverno. Estava frio e nós no interior de um automóvel. Eu tentava abrir-me, tornar-me claro. O que eu queria era fazer-me ouvir, algo em que eu falharia grandemente, mas que por ora ganhava um pouco de coragem para fazer.
E eu disse que o que eu mais temia era que me acontecesse o que tinha sucedido a Jane Eyre. A história da rapariga que se apaixonava pelo patrão e que no dia do casamento descobria que este não poderia ter lugar porque o noivo era na verdade casado. A mulher estava enlouquecida há muito, trancada num sótão. Claro que eu não temia isto num sentido literal. Mas temia.
E satisfeito da minha valentia em saber articular os meus medos e desejos, eu falava no interior daquele automóvel.

terça-feira, 28 de abril de 2015

fim.

Está tudo dorido.

sábado, 28 de março de 2015

Jardim Bívar

É preciso não esquecer Mécia.
Uma tia de Mécia fora muito infeliz no casamento com um sargento de Infantaria. E por isso Mécia crescera com a tia dizendo-lhe que nunca se entregasse a um homem que não a tratasse bem. Nada lhe deveria ser admitido. E por isso Mécia, crescendo, afastava com prontidão uma palavra seca que fosse. Não admitia uma zanga, não aceitava uma explicação.
Mécia era agora tia de Branca e de Catarina e continuava solteira.
Creio que nunca me irei esquecer de Denfert-Rochereau.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Hotel na areia 14

(Creio que posso já revelar o nome do homem que fizera as reservas, o que tinha os olhos tristes – José, Zé. Tinha um nome tão curto e, no entanto, ocupava o quarto todo.)

Catarina e Catarina

Catarina tornando-se Catarina. Como foi isto acontecer. Catarina tornando-se Catarina e eu já nem sei onde estamos, se em Faro, se em Lisboa, se em alguma cidade que eu imaginei e ninguém construiu.
Eu vi Catarina ao fim da tarde. Catarina que se tornava Catarina.
Claro que o mesmo homem vago e inconstante, omisso e imprevisível. Claro que sim. Talvez ainda pior. De outra maneira, Catarina não se teria tornado Catarina, não tão rápido, ali mesmo, sob os meus olhos incrédulos.
Notei logo, o tom progressivamente alterado da voz, uma ponta de histeria. Catarina tornava-se Catarina e ia mesmo para além dela. Temi por Catarina.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

O Recolhimento

Visitação - Senhora D. Luísa...
Luísa - Estão a rezar. Quem reza?
Visitação - As senhoras do Recolhimento.
Luísa - As senhoras?
Visitação - Sim, as senhoras. Senhoras, moças... as pobres que aqui vivem.
Luísa - Senhoras... casadas com fidalgos?
Visitação - Pois. Casadas com fidalgos, viúvas de fidalgos, órfãs de fidalgos.
Luísa - Viúvas... Palavra terrível.
Joana - E porquê falar em viuvez, minha senhora?
Visitação - Viuvez?
Luísa - Oh... É o meu medo. Temo-a, apenas isso.
Joana - Porquê agoirar? De nada serve agoirar.
Luísa - Ele volta logo, ele volta logo.
(pausa)
Joana - E os aposentos da senhora, irmã?
Luísa - A irmã falava das senhoras que rezam. A quem rezam elas?
Visitação - A quem rezam?
Luísa - Por que rezam? Que pedem elas?
Visitação - O que lhes disser a alma.
Luísa - Poderei juntar-me a elas, a essas mulheres de fidalgo? Eu também sou mulher de fidalgo. E quero rezar por ele. Tenho tanto medo.
Visitação - Claro.
Joana - Ele volta em breve, minha senhora, não deve preocupar-se.
Visitação - Volta?
Joana - Volta.
Luísa - Sim, eu sei que volta. Rezarei por isso mesmo.